LEITURAS DE CAMILO CASTELO BRANCO XIX
CARTA III
Porto, 24 de Maio de 1858, segunda-feira
Não fala o coração na sua carta.
O sofrimento dá uma vista dupla. Vi-lhe a sua alma através das poucas linhas traçadas por um pulso onde passava o sangue quieto e regular.
Isto não é uma acusação, minha amiga; é mágoa, é pena de mim mesmo; será mesmo egoísmo até certo ponto.
Não é a razão humana uma coisa bem miserável? Tenho no espírito a convicção de que não sou o homem que deve exercer na sua alma imperiosa influência; reconheço-me vulgar demais para abrasá-la no amor que transporta e cega; escuto com triste complacência a voz íntima do juízo; e, contudo, o coração insensato insurge-se contra a razão, e dói-se por não poder vencê-la.
Pois não aspirava eu a um domínio absoluto na sua vida? Não imaginei eu todas as venturas, que podem gozar-se debaixo do céu, debuxadas na tela que até hoje a mão do futuro escondia?Vou contar-lhe as minhas esperanças todas. Falemos delas como se fala de um morto, que deixou saudades.
Tenho três noites de vigília, de febre, de delírio, talvez, encostado à mesa, em que escrevo.
Conversava com a sua imagem; sentia-me feliz neste recolhimento; dava asas à fantasia; criava delícias como as que rebrilham e douram a imaginação do homem virtuoso a quem o Senhor concedeu prelibação no céu.(…)
Manuel Tavares Teles - “CAMILO E ANA PLÁCIDO – EPISÓDIOS IGNORADOS DA CÉLEBRE PAIXÃO ROMÂNTICA”, CARTA II, Pág. 104, Edições Caixotim, Lda. - Setembro de 2008
292.º ENCONTRO
Seleção de Maria José Areal
Seleção de Maria José Areal
Porto, 24 de Maio de 1858, segunda-feira
Não fala o coração na sua carta.
O sofrimento dá uma vista dupla. Vi-lhe a sua alma através das poucas linhas traçadas por um pulso onde passava o sangue quieto e regular.
Isto não é uma acusação, minha amiga; é mágoa, é pena de mim mesmo; será mesmo egoísmo até certo ponto.
Não é a razão humana uma coisa bem miserável? Tenho no espírito a convicção de que não sou o homem que deve exercer na sua alma imperiosa influência; reconheço-me vulgar demais para abrasá-la no amor que transporta e cega; escuto com triste complacência a voz íntima do juízo; e, contudo, o coração insensato insurge-se contra a razão, e dói-se por não poder vencê-la.
Pois não aspirava eu a um domínio absoluto na sua vida? Não imaginei eu todas as venturas, que podem gozar-se debaixo do céu, debuxadas na tela que até hoje a mão do futuro escondia?Vou contar-lhe as minhas esperanças todas. Falemos delas como se fala de um morto, que deixou saudades.
Tenho três noites de vigília, de febre, de delírio, talvez, encostado à mesa, em que escrevo.
Conversava com a sua imagem; sentia-me feliz neste recolhimento; dava asas à fantasia; criava delícias como as que rebrilham e douram a imaginação do homem virtuoso a quem o Senhor concedeu prelibação no céu.(…)
Manuel Tavares Teles - “CAMILO E ANA PLÁCIDO – EPISÓDIOS IGNORADOS DA CÉLEBRE PAIXÃO ROMÂNTICA”, CARTA II, Pág. 104, Edições Caixotim, Lda. - Setembro de 2008

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