LEITURAS CAMILO CASTELO BRANCO XVII
Seleção de Maria José Areal
Porto, 21 de Maio de 1858 – Sexta-feira
Se eu fosse pontual na promessa, que fiz, de lhe não escrever outra carta, seria mentiroso o amor, que lhe confessei. O amor da alma, que facilmente transige com o amor próprio, deve ser muito frouxo e incapaz de sacrificar-se. Não a amo como vulgarmente se ama: deve por isso, consentir-me a segunda culpa, ou a segunda impertinência.
Disse V. Exc.a que não conhecia a pessoa, que lhe escrevera: era isso mesmo que eu previra; semelhante suspeita era a causa do muito que eu sofria, quando tirava do coração essas poucas linhas, que deviam trazer-me um desengano. Veio o desengano triste e desanimador. Não me conhece. Equivale isto a dizer que eu tive a presunçosa vaidade de julgar-me distinto aos seus olhos, e conheci a loucura de me crer compreendido não sei porquê, nem com que merecimentos. Ainda mais: esse não me conhecer é uma repreensão justiceira ao meu orgulho; é o mesmo que dizer-me: não cuides que realças para ser visto entre tantas obscuridades, que passam despercebidas debaixo dos meus olhos.
Quer agora saber o que é um grande amor? É sentir o coração invulnerável, quando a vaidade sangra; é amá-la com a mesma ternura, depois do desengano que ultraja o amor próprio; é esquecer-me de mim e das minhas esperanças, para me só lembrar do grande valor da sua alma e do pouco que fiz para lha merecer.(…)
Manuel Tavares Teles - “CAMILO E ANA PLÁCIDO – EPISÓDIOS IGNORADOS DA CÉLEBRE PAIXÃO ROMÂNTICA”, CARTA II, Pág. 101, Edições Caixotim, Lda. - Setembro de 2008

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