LEITURAS CAMILO CASTELO BRANCO V
Seleção de Maria José Areal
Meu amigo
Resolvi reformar a minha vida. Já era tempo! Mas não cuide que vou recolher-me a algum mosteiro de reformados! A reforma é tal que o mundo há-de chamar-lhe relaxação.
Como não posso com as despesas de duas casas, ambas dispendiosas, resolvi viver com esta infeliz Senhora, que é um raro prodígio de infortúnio. Vou alugar casa ali na Rua da Boa Morte. O nome é fatídico! Mas vou porque a acho espaçosa e barata.
A mobília que tenho é insignificante. Preciso tornar a decoração da casa como um estímulo a gostar de viver sequestrado do mundo. O meu amigo tem de ser parte nestes arranjos, dando-me abono para eu me levantar a mobília indispensável, e pagá-la em prestações mensais. Isto penso eu que não lhe será penoso nem prejudicial; e contudo é muito favor.
Queira dizer-me se posso contar com a sua cooperação. A casa está já despejada, e faço brevemente a mudança.
Do seu
Muito amigo
Camilo Castelo Branco
(Julho/Agosto de 1862)
Camilo Castelo Branco, “Cartas de Camilo aos Editores António Maria Pereira” , colectânea inédita, prefácio e comentários de Alexandre Cabral, pág.103 – 1973 – edição, Parceria A. M. Pereira, Lda.
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