Chá com Letras Online: TEMPO DE FÉRIAS -LEITURAS DE LUÍSA DACOSTA

 

LEITURAS DE LUÍSA DACOSTA

251.º ENCONTRO

Seleção de Maria José Areal

Dezembro, Lisboa

Sob um céu baixo, pardacento erguido pela chaminé suja da fábrica, as traseiras desolam-se num abandono encardido, que Dezembro acentua. Roupas escuras, tapetes esgarçados, pendem dos estendais. E uma manta de farrapos, bate de encontro à parede desbotada do prédio azul. Está frio. Levantou-se um ventinho afiado. Os gatos acoitam-se nos patamares, mais resguardados. Felizmente chegou a Irene. Leve. Contente. O seu ar de toutinegra. Qualquer coisa de sub-reptício e um embrulhinho. Franzi o sobrolho, mas ela apressou-se: “Ora. São umas caganifâncias para a Teresa…” Caganifâncias!” como lhe estou grata! Calculo, calculo o que significa para alguém solitário, como a Irene, abdicar de todo aquele mundo de pombas, de borboletas, de grinaldas, de rapazinhos e sapato de laço, meninas de calcinhas de renda a puxar carrinhos de flores e a tocar arcos, que fez parte dela há mais de cinquenta anos, quando ela era uma menina selvagem, abandonada, que colecionava estampas. Querida Irene”
LUÍSA DACOSTA, “Na Água do Tempo – diário”, pág.70, 1992, Edição Quimera Editores.



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