LEITURAS DE LUÍSA DACOSTA
Sob um céu baixo, pardacento erguido pela chaminé suja da fábrica, as traseiras desolam-se num abandono encardido, que Dezembro acentua. Roupas escuras, tapetes esgarçados, pendem dos estendais. E uma manta de farrapos, bate de encontro à parede desbotada do prédio azul. Está frio. Levantou-se um ventinho afiado. Os gatos acoitam-se nos patamares, mais resguardados. Felizmente chegou a Irene. Leve. Contente. O seu ar de toutinegra. Qualquer coisa de sub-reptício e um embrulhinho. Franzi o sobrolho, mas ela apressou-se: “Ora. São umas caganifâncias para a Teresa…” Caganifâncias!” como lhe estou grata! Calculo, calculo o que significa para alguém solitário, como a Irene, abdicar de todo aquele mundo de pombas, de borboletas, de grinaldas, de rapazinhos e sapato de laço, meninas de calcinhas de renda a puxar carrinhos de flores e a tocar arcos, que fez parte dela há mais de cinquenta anos, quando ela era uma menina selvagem, abandonada, que colecionava estampas. Querida Irene”
LUÍSA DACOSTA, “Na Água do Tempo – diário”, pág.70, 1992, Edição Quimera Editores.

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